Diários do Caribe
Dia 4, parte B.
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Ontem, ao fim do dia, estava calor.
Tu tinhas cara de José. Voltei-me para o lado, pelo fim da sesta. Os lençóis frescos repousando na penumbra, o som do ventilador num transe ainda sonâmbulo. O roçar do tornozelo na tua perna. Volto-me de novo para aceder a um beijo. E tinhas cara de Ricardo. E depois, olhava-te nos olhos e eras o António. Beijavas-me profundamente; incitavas-me ao sexo, mas eu não sentia grande coisa. Mais uma volta. E tinhas cara Mateus. E já não aparecias havia anos…!
E agora, não sei o teu nome. Talvez te ame!
Desculpa, diário. Escrevo-te, na segunda pessoa, como se fosses este homem… Nunca lhe consigo dizer estas coisas pessoalmente. …É que, o total dos seus pedaços, antes terem sido rasgados de uma folha de poema intacto, tinham sido (re)trespassados para um poema novo de uma forma errónea.

Dia 3, de tarde.
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No outro dia, apertava-te nos meus braços. Tanto! Que te tornaste movediço.
Como se o meu abraço fosse o anel que divide duas âmbulas de ampulheta.
– “Tudo passa…; tudo chega…” – Dizia a mulher que tem sempre razão. É uma que vejo todos os dias, aqui na rua. É simpática. Diz-me sempre os bons dias.
Já volto. Está calor. Vou comer um gelado!

Dia 8
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A pele do dia-a-dia exposta ao sol constantemente.
Há muitos insetos pela casa!
Na outra noite, entrou-me uma borboleta noturna pelas janelas do quarto abrasado. Tinha longas asas transparentes, cheias de olhos negros a perscrutar o respirar silencioso do repouso. Insistente, inquietava-me o sono, com o marulhar acelerado das suas asas. Como uma mão, remexendo entre os objetos na mesa-de-cabeceira, num gesto lançando-se ao necessário procedimento de uma noite de ardor. Preservativos, entre, peças de bijuteria, cadernos cheios de notas e outros. Ou o sonho ou a metamorfose enredou-se em torno do corpo meio coberto por um lençol…
Foi uma longa e profunda noite de amor revigorante!
De manhã levantei-me e, ao dar um salto da cama, pisei o pobre inseto que estava ali estendido.
Apanhei-o com o resto de um lenço de papel amachucado e deitei-o no vaso.
Talvez alimente um pouco as minhas plantas.

Dia 4
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Sou tremendamente sentimental…!
Às vezes, basta-me apanhar o metro e chego a uma ilha no Pacífico.
Mais tarde, quando abro os olhos, enrodilhada na areia quente, descubro que este enlevo tem outras coordenadas.

Dia 4, à noite
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Estava calor.
– Não te movas!
Dizia, como que para segurar o júbilo desse instante.
E o mesmo par de segundos estático resvalava para um outro dia, quando a uma certa hora caminhava por uma rua e quisera fixar a sensação daquele tão preciso momento. É que esse momento convinha-me.

Dia 1000
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Se eu pudesse trespassar o meu corpo para um papel de poema. Rasgá-lo-ia em pedaços.
Na verdade, outro dia saiu um bocadinho dele, pela noite. Outro ficou a descansar. E outros ficaram colados a uma gaze (por não haver nada melhor) que estava ali em torno do braço que escreve (por não haver mais nenhuma parte do corpo, disponível no momento, onde colocá-la).
A dor era a dos pedaços que saem para a rua e voltam do apagar das luzes. E os outros eram pedaços móveis que esperavam reconciliar-se com os restantes.
Dia 0
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Não estou a relatar o meu pensamento enquanto caminho pelas ruas da cidade.
